|
Luís
Carlos Lopes
21/09/07
- O
Brasil é hoje um país de emigração.
Continua, contudo, recebendo imigrantes, como no passado,
gente vinda de toda parte. Mas, o número dos que
saem (emigrantes) é bem maior do que em qualquer
época de nossa história.
Existem
múltiplas diásporas no mundo atual. Inúmeros
povos buscam refúgio ou uma vida melhor fora de seus
países de nascimento. Em termos numéricos,
as migrações massivas da África, da
América Latina, do Leste Europeu e de alguns países
da Ásia chamam a atenção. Milhões
trocam de pátria, idioma e convivência cultural.
Vão viver onde existe a possibilidade de trabalho,
sonhando com melhores dias. Mais do que em qualquer outra
época, o contexto da globalização é
o da existência de inúmeros casos de migrações
massivas.
Os
destinos preferenciais destas migrações são
bem conhecidos. Vários países da Europa ocidental,
os Estados Unidos, o Canadá, o Japão e a Austrália
lideram a disputa pelo maior escore de países de
acolhida, em cada região do planeta. O destino de
muitos depende de inúmeros fatores, que variam enormemente
de caso para caso. Obviamente, conseguem ficar nestes países,
porque existem dispositivos legais ou semilegais que facilitam
as coisas.
Os
países de acolhida, também ‘escolhem’
os imigrantes, de acordo com seus interesses e necessidades.
Mesmo os imigrantes ilegais, só ficam porque há
trabalho e interesses pelas suas permanências. Os
critérios de seleção de imigrantes
formatados por alguns países lembram os antigos princípios
da eugenia, na busca dos mais aptos e nos que quase nada
há o que investir. Buscam mão-de-obra altamente
especializada e/ou trabalhadores braçais para preencher
as lacunas de suas economias.
Não
raro, suas políticas de imigração criam
deformidades, como a de contar com pessoas bem formadas
trabalhando, se imigradas, em funções socialmente
inferiores que exerceriam em seus países de origem,
se houvesse emprego. As funções mais qualificadas,
quase sempre são reservadas aos nascidos e educados
no país. Os imigrantes as alcançam com muitas
dificuldades e depois de cinco, dez ou mais anos. Em vários
casos, a migração funciona melhor para a segunda
e a terceira geração.
Existe
uma espécie de redoma invisível, sempre negada,
que caracteriza os chamados espaços multiculturais.
Nesta, os povos que recebem os imigrantes convivem com os
mesmos de modo estranho, onde cada qual deve ficar em seu
lugar, sem reivindicar muito e nem querer ter direitos reais
exatamente iguais. Para os que chegam, sobram os deveres,
quase sempre mais pesados do que os direitos que conseguem
obter. No plano da Lei, isto não é verdadeiro.
Todos têm os mesmos direitos, quando alcançam
a cidadania plena. Mas, quem ainda acredita que a Lei é
o que organiza isoladamente as sociedades humanas?
Na
Europa, países que mantiveram colônias na Ásia,
na África e na América Latina, hoje, recebem
milhões de imigrantes vindos de lá. Normalmente,
eles ‘escolhem’ seus países de adoção,
a partir da língua e da existência de núcleos
antigos de imigração que facilitam a chegada
e a instalação. Na Ásia, o Japão,
por exemplo, vem recebendo milhares de origem brasileira,
à busca de trabalho e da formação de
uma pequena poupança, a ser investida no Brasil.
Neste caso bastante particular, os imigrantes são
descendentes dos japoneses que vieram para o Brasil no passado.
Os Estados Unidos e o Canadá são destinos
de emigrantes saídos de toda parte. Predominam os
vindos da América Latina, dos países mais
pobres da Ásia e os originados da África,
sobretudo os árabes e os povos da África Central.
Em todos os casos, contatos anteriores, derivados da política
e da economia, a existência da proximidade geográfica,
dentre outros fatores, explicam o destino de muitos.
O
Brasil é hoje um país de emigração.
Continua, contudo, recebendo imigrantes, como no passado,
gente vinda de toda parte. Mas, o número dos que
saem (emigrantes) é bem maior do que em qualquer
época de nossa história. Calcula-se que cerca
de quatro milhões ou mais de brasileiros foram tentar
a vida no exterior nos últimos vinte anos. Alguns
foram e jamais voltaram. Outros, por diversas razões,
voltaram espontaneamente ou foram obrigados a retornar.
Dos que retornam, alguns devem se radicar definitivamente
no Brasil. Outros retornam ao mesmo destino anterior ou
para uma nova tentativa de sobreviver em região desconhecida.
A
diáspora brasileira tem, como as demais, pontos de
concentração precisos. Os brasileiros vão
em massa para os EUA e para a península ibérica.
Além destes dois pontos, a já comentada emigração
para o Japão é um caso particular e bastante
problemático. Entretanto, são encontráveis
em pequenos grupos espalhados por todo o planeta Terra.
Não é difícil encontrar brasileiros,
praticamente, em qualquer país. Eles lá estão
pelas mais diversas razões.
A
presença desta diáspora é um fenômeno
novo que precisa ser compreendido como uma das dimensões
do atual processo de globalização. A economia
mundializou-se, propondo o fim da antiga possibilidade de
desenvolvimento local autônomo e autosuficiente. O
capital, que nunca teve pátria, percebeu as vantagens
de viajar na velocidade das redes de comunicação
e dos computadores ligados ao mercado financeiro internacional.
É mais lucrativo comprar insumos onde é mais
barato, produzir nos países de salários mais
baixos e vender no mercado mundial. Também, é
um bom negócio empregar imigrantes no chamado primeiro
mundo, nas condições que se conhece através
das mídias e dos depoimentos de retornados.
Os
migrantes são peças destas engrenagens, buscam
sobreviver nas frestas desta nova ordem mundial. Tendem
a ir para os centros que os acolhem, interessados no que
ganharão com isto. Vão porque ainda faltam
empregos, salários dignos ou não se está
de acordo com a ordem interna de seus países de origem.
Existe gente que migra porque não possui meios de
se profissionalizar e conseguir um emprego melhor. Normalmente,
vão para o emprego precário no exterior, entretanto,
ganhando bem mais que o mesmo tipo de emprego daria no seu
país de origem.
Eles
enfrentam a discriminação, a guetificação
e a saudade de seu país natal. Facilmente, estes
emigrantes chegam a ter problemas com os aparatos repressivos
de seus países de acolhida. Todavia, recordam que
de onde vieram tinham que conviver com a criminalidade de
massa, a violência policial e, em muitos casos, com
as injustiças sociomorais das decisões políticas
e judiciais. São anônimos de onde vieram e
para onde vão. Acham que vale a pena, porque foram
ensinados pela publicidade e pelos modernos valores sociais
mundializados de que uma vida boa, só é bem-sucedida,
com dinheiro no bolso. É o vil metal que procuram,
porque sem ele, de onde vieram e onde estão, nada
valem.
Apesar
de buscarem o dinheiro, não podem usar os canais
pelos quais ele circula. Trafegam como uma mercadoria especial
– a carne humana – que, como no passado escravista
continua sendo vendida no mercado internacional. A diferença
é que não mais se vende – com algumas
exceções – as pessoas, mas, sim suas
forças de trabalho.
É
diverso o espaço de realização das
transações desta mercadoria oferecida ao capital
internacional. Agora, o mundo já não mais
se divide, como até o século XIX, em colônias
e países escravistas, de trabalho compulsório
ou a baixo preço e as metrópoles e países
mais industrializados e, por isso, mais ricos e com menores
problemas sociais. No momento, o trabalho precário,
que existe no Brasil, também funciona em lugares
inimagináveis, onde na redoma existem excelentes
condições de vida. Trata-se daqueles países
que ostentam o mais alto índice de desenvolvimento
humano (IDH), reservado em prioridade para os nativos e
de acesso negado, parcial ou difícil para os que
vêm de fora.
Tudo
isto gera um fenômeno sociocultural e político
novo, que alguns já denominaram como estado imigrante,
composto pelos grupamentos de brasileiros espalhados pela
face da Terra. Eles vêm buscando reconhecimento e
alguma espécie de ajuda da pátria-mãe.
Não devem ser abandonados porque fugiram dos seus
países. Tiveram razões de sobra para isto.
Além do mais, têm o direito de ir e vir pelo
mundo afora e de experimentar a vida por toda parte e tirar
suas próprias conclusões. Alguns conseguem
ter uma vida boa. Outros são bem-sucedidos financeiramente,
mas, paradoxalmente, reclamam que lhes falta algo que não
conseguem compreender. Outros, talvez a maioria, no máximo
conseguem algum dinheiro à custa de muito esforço
e sofrimento. Muitos, nem isso, caindo em estado de desespero.
Todos são brasileiros, mesmo que cidadãos
do universo globalizado. Precisam superar diferenças,
se abraçarem e se organizarem no exílio especial
de nossos dias.
http://www.agenciacartamaior.com.br/templates/analiseMostrar.cfm?coluna_id=3726
Alto
da página
|