12/10/07
- "O samba é um bonito modo de viver.
(Nelson Sargento, sambista da velha-guarda)
O
mais recente Patrimônio Cultural do Brasil tá
no pé do sambista, na mão do pandeirista,
no som do cavaco, em cima dos morros, na Marquês
de Sapucaí. O Instituto do Patrimônio Histórico
e Artístico Nacional (Iphan) registrou oficialmente
as matrizes do samba do Rio de Janeiro – samba
de terreiro, partido-alto e samba-enredo –
no Livro de Registro das Formas de Expressão, nesta
terça-feira, 9/10.
O
pedido de registro foi feito pelo Centro Cultural Cartola,
com apoio da Associação das Escolas de Samba
do Rio de Janeiro e da Liga Independente das Escolas de
Samba (Liesa). Nilcemar Nogueira, presidente do Centro
e neta do compositor Angenor de Oliveira, o Cartola, fez
o pedido, pois temia o enfraquecimento das matrizes do
samba do Rio. "Meu avô foi um dos pioneiros
da popularização dessa forma de samba, no
final da década de 20. Quero proteger seu legado
cultural", alega.
A
pesquisa que levou ao registro, feita pelo Centro Cultural
Cartola com orientação do Iphan, reúne
um conjunto de referências históricas: monografias,
teses, livros, vídeos, reportagens, discografia
da época e o testemunho de sambistas da velha guarda,
como Monarco, Xangô da Mangueira, Nelson Sargento.
Desde as reuniões em casa de Tia Ciata, no início
do século 20, a pesquisa identifica o samba nos
blocos, nos morros, nas ruas e quintais. O estudo mapeou
as seis escolas de samba mais antigas do Rio: Mangueira,
Portela, Salgueiro, Vila Isabel, Império Serrano,
Estácio de Sá.
A
partir do material pesquisado, o Iphan produziu um vídeo-documentário,
que estará disponível em breve, veja também,
em anexo no fim desta matéria, o dossiê que
foi produzido.
Matrizes
do samba
O
samba de terreiro faz referência aos espaços
de encontro e celebração dos sambistas,
que ali dançam um samba livre com as marcas de
sua ancestralidade. Nos terreiros, pátios das escolas
de samba, cantam as experiências da vida, o amor,
as lutas, as festas, a natureza e a exaltação
das escolas e da própria música.
Já
o partido-alto é marcado pelos
versos de improviso. Nasceu das rodas de batucada, onde
o grupo marca o compasso, batendo com a palma da mão
e repetindo o refrão e inventando estrofes segundo
um tema proposto. É o refrão que serve de
estímulo para que um participante vá ao
centro da roda sambar e com um gesto ou ginga de corpo
convide outro componente da roda.
Com
a criação das primeiras escolas de samba,
no final da década de 1920, o samba se adaptou
às necessidades do desfile. Criou-se uma nova estética
e uma nova modalidade: o samba-enredo.
O compositor elabora seus versos com base no tema (enredo)
a ser apresentado pela escola, descrevendo uma história,
de maneira melódica e poética. De sua animação
e cadência depende todo o conjunto da agremiação,
tanto em termos de evolução como de envolvimento
harmônico.
Salvaguarda
A
preservação da tradição do
samba no Rio de Janeiro foi pensada de forma a retomar
a prática espontânea, de improviso, sem limitar
a transmissão do saber às aulas das escolas
de samba. Com a espetacularização do samba-enredo,
diminuíram-se os espaços para se praticar
as formas mais tradicionais do samba – partido-alto
e o samba de terreiro. Houve redução da
quantidade de solistas de instrumentos como o pandeiro
e a cuíca, e diminuição no número
de partideiros, os improvisadores.
Por
isso, o Iphan recomenda a criação de um
plano de salvaguarda que incentive, apóie e promova
ações de valorização das formas
originais do samba no Rio de Janeiro. Esse plano requer
a articulação das comunidades de sambistas,
inclusive da velha-guarda, principais detentores da tradição
e dos saberes.
Entre
as ações preliminares, sugeridas a partir
da demanda dos próprios sambistas, está
o incentivo à pesquisa histórica e à
produção de biografias. Ao mesmo tempo,
promover a encontros de mestres partideiros e versadores,
nas próprias comunidades originais dos sambistas,
com a presença dos mais jovens. O registro em áudio
e vídeo desses encontros ajudaria a difundi-los
e revitalizá-los.
O
samba do Rio de Janeiro contribui para a integração
social das camadas mais pobres. Tornou-se um meio de expressão
de anseios pessoais e sociais, um elemento fundamental
da identidade nacional e uma ferramenta de coesão,
ajudando a derrubar barreiras e eliminar preconceitos.
Incentivar a prática do samba é também
uma maneira de minimizar as diferenças sociais.
A
identificação e o reconhecimento das formas
de samba brasileiras é uma das diretrizes do Iphan,
que se insere na proposta da atual gestão do Ministério
da Cultura, de construção de um mapa cultural
do Brasil. Entre os 11 bens reconhecidos como patrimônios
imateriais brasileiros, se destacam algumas das várias
formas de samba dançadas no território nacional.
Já receberam o título: o samba de roda no
Recôncavo Baiano, o tambor de crioula no Maranhão
e o jongo no Sudeste.
Dossiê
do Samba Carioca
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