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Rodolfo Torres

A carência de Estado do PMDB

Jornalista rodolfotorres@bayoubrasil.com


01/10/07

Rodolfo Torres Brasília - A não aprovação da medida provisória que criaria definitivamente a Secretaria de Ações de Longo Prazo (Sealopra) serviu para o PMDB dar dois recados ao Planalto. Primeiro: o partido, que tem a maior bancada no Congresso, quer mais espaço e atenção do governo. E essa atenção passa necessariamente pela proteção ao presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL).

Segundo: se o governo não for mais carinhoso com o partido, a Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF) – que rende cerca de R$ 40 bilhões por ano aos cofres da União – terminará no final deste ano.

Esses são os dois recados formais, os dois recados explícitos. Mas existe uma outra mensagem, mais dramática até do que as duas anteriores: se Renan cair, não será apenas o ministério de Mangabeira Unger que vai para o buraco. Se o governo não mobilizar seus articuladores e garantir a proteção necessária para preservar o mandato de Renan, que ainda responde a três processos no Conselho de Ética do Senado, o governo Lula também cai.

Renan Calheiros foi fundamental para o governo durante a crise do mensalão. O peemedebista, que é um articulador político reconhecido, assegurou a proteção necessária para que a “organização criminosa” (conforme entendimento do Supremo Tribunal Federal) não levasse Lula ao mesmo destino de Fernando Collor enquanto presidente.

Agora, durante o turbilhão das denúncias da revista Veja, o senador alagoano sabe que se saísse da presidência do Senado, ficaria enfraquecido politicamente. Portanto, para a sua própria existência política, permaneceu a frente do Congresso, levando o governo a um constrangimento “nunca antes visto na história deste país”.

O caso Renan é uma legítima demonstração de como o jogo do poder funciona. Em 2005, tentaram atingir o presidente Lula e viram que sua imagem é forte demais para ser destruída pelas páginas de jornal. Daí resolveram atingir o governo de outra forma: atacando um aliado do Planalto que preside o Congresso Nacional e não se preocupou em apagar o rastro de suas atuações. Cabe aqui apenas registrar que em 2005 a denúncia contra o governo não partiu da imprensa, como ocorre no caso Renan. Em 2005, a denúncia partiu da base aliada do governo na Câmara.

Essa confusão em torno do caso Renan é parte legítima do jogo de poder. A oposição sabe que a defesa do alagoano desgasta a base de apoio do governo, e vai levar o caso até as últimas conseqüências. Fundamental agora é associar a imagem do peemedebista aos defensores do governo Lula.

De um lado, a insustentável defesa de Renan. Do outro, a tentadora proposta de prorrogar a cobrança da CPMF. E no meio dessa confusão, o PMDB, partido mais do que crucial para a tal da “governabilidade”.

O brasileiro entende melhor a vida se ela for explicada por meio de um roteiro de novela. Sendo assim, basta dizer que o governo que abrigou uma “organização criminosa” em seu ventre precisa se aliar ao senador que ainda responde a três processos por quebra de decoro parlamentar para aprovar um imposto muito malvado. Imposto este que taxa toda e qualquer movimentação bancária da população e que foi criado para melhorar a saúde pública, que consegue ser pior a cada santo dia.

Agora é acompanhar os próximos capítulos para saber qual dos vilões sobreviverá: governo, oposição e CPMF.

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