Brasília - A não aprovação da
medida provisória que criaria definitivamente a Secretaria
de Ações de Longo Prazo (Sealopra) serviu
para o PMDB dar dois recados ao Planalto. Primeiro: o partido,
que tem a maior bancada no Congresso, quer mais espaço
e atenção do governo. E essa atenção
passa necessariamente pela proteção ao presidente
do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL).
Segundo:
se o governo não for mais carinhoso com o partido,
a Contribuição Provisória sobre Movimentação
Financeira (CPMF) – que rende cerca de R$ 40 bilhões
por ano aos cofres da União – terminará
no final deste ano.
Esses
são os dois recados formais, os dois recados explícitos.
Mas existe uma outra mensagem, mais dramática até
do que as duas anteriores: se Renan cair, não será
apenas o ministério de Mangabeira Unger que vai para
o buraco. Se o governo não mobilizar seus articuladores
e garantir a proteção necessária para
preservar o mandato de Renan, que ainda responde a três
processos no Conselho de Ética do Senado, o governo
Lula também cai.
Renan Calheiros foi fundamental para o governo durante a
crise do mensalão. O peemedebista, que é um
articulador político reconhecido, assegurou a proteção
necessária para que a “organização
criminosa” (conforme entendimento do Supremo Tribunal
Federal) não levasse Lula ao mesmo destino de Fernando
Collor enquanto presidente.
Agora, durante o turbilhão das denúncias da
revista Veja, o senador alagoano sabe que se saísse
da presidência do Senado, ficaria enfraquecido politicamente.
Portanto, para a sua própria existência política,
permaneceu a frente do Congresso, levando o governo a um
constrangimento “nunca antes visto na história
deste país”.
O caso Renan é uma legítima demonstração
de como o jogo do poder funciona. Em 2005, tentaram atingir
o presidente Lula e viram que sua imagem é forte
demais para ser destruída pelas páginas de
jornal. Daí resolveram atingir o governo de outra
forma: atacando um aliado do Planalto que preside o Congresso
Nacional e não se preocupou em apagar o rastro de
suas atuações. Cabe aqui apenas registrar
que em 2005 a denúncia contra o governo não
partiu da imprensa, como ocorre no caso Renan. Em 2005,
a denúncia partiu da base aliada do governo na Câmara.
Essa confusão em torno do caso Renan é parte
legítima do jogo de poder. A oposição
sabe que a defesa do alagoano desgasta a base de apoio do
governo, e vai levar o caso até as últimas
conseqüências. Fundamental agora é associar
a imagem do peemedebista aos defensores do governo Lula.
De um lado, a insustentável defesa de Renan. Do outro,
a tentadora proposta de prorrogar a cobrança da CPMF.
E no meio dessa confusão, o PMDB, partido mais do
que crucial para a tal da “governabilidade”.
O brasileiro entende melhor a vida se ela for explicada
por meio de um roteiro de novela. Sendo assim, basta dizer
que o governo que abrigou uma “organização
criminosa” em seu ventre precisa se aliar ao senador
que ainda responde a três processos por quebra de
decoro parlamentar para aprovar um imposto muito malvado.
Imposto este que taxa toda e qualquer movimentação
bancária da população e que foi criado
para melhorar a saúde pública, que consegue
ser pior a cada santo dia.
Agora é acompanhar os próximos capítulos
para saber qual dos vilões sobreviverá: governo,
oposição e CPMF.
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