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Rodolfo Torres

Sempre cabe mais uma: que venha a CPI da Navalha

Jornalista rodolfotorres@bayoubrasil.com


21/05/07

Rodolfo Torres Brasília - Antes de qualquer outra coisa, é necessário registrar que Romário fez o seu milésimo gol nesse domingo. E de pênalti, da mesma forma que Pelé marcou o seu milésimo há 37 anos. Tudo bem que Romário marcou em São Januário e Pelé, no Maracanã. Tem até quem afirme que o adversário do Vasco de Romário, o Sport do Recife, não estava a altura do adversário do Santos de Pelé, o Vasco da Gama (atual time de Romário).

Mas o que me traz aqui não é o futebol, nem essas comparações entre jogadores brasileiros. Minha praia é mais espinhosa, menos entendida e muito mais desgastante e cansativa. Minha praia é cobrir a política do país que parou esse domingo para ver o milésimo gol de Romário.

A Polícia Federal, dentre as suas infinitas operações, saiu prendendo um monte de gente na última quinta –feira (17). Entre elas, ex-governadores, funcionários públicos e empresários. Parece que esse pessoal estava envolvido em um esquema de corrupção que desviava dinheiro dos cofres da nação.

O programa televisivo de maior audiência do domingo à noite, aquele que com sua música melancólica decreta que o fim de semana morreu, reservou uns bons 15 minutos de reportagem para mostrar como a quadrilha se infiltrou na administração federal e em alguns governos estaduais. O roteiro não é novidade: obras superfaturadas, pagamento de propinas, tráfico de influência e tudo mais que o povo brasileiro não sabe explicar muito bem, mas entende que não é coisa direita.

Está todo mundo na expectativa de ver algum parlamentar envolvido na conversa. Pelo que pude olhar em ou outro veículo de comunicação, até agora dois senadores estão “em situação delicada”: o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), que, de acordo com a revista Veja , chegou a despachar na residência oficial com o dono da empreiteira acusada de coordenar os desvios de dinheiro em obras públicas; e o senador Delcídio Amaral (PT-MS), que, de acordo com a Folha de S. Paulo , aparece na contabilidade da Gautama, empreiteira acusada de coordenar o mesmo esquema.

Amanhã teremos aquela chuva de declarações, todo mundo se declarando inocente, a imprensa indo atrás dos parlamentares que tiveram ligações com alguns dos 46 presos na operação da Polícia Federal, certamente alguém vai sugerir uma CPI da Navalha (nome da operação da PF), e o resultado disso tudo é conhecido por todos nós. Não vai dar em nada. Congresso serve para vender jornal. Em períodos normais, de terça a quinta. Em situações de crise, a tiragem aumenta. Mas a tolerância do brasileiro para ver a corrupção despida é muito pequena.

Já apareceu gente dizendo que o mensalão, os sanguessugas e o pessoal da Navalha são parentes na corrupção. E a única explicação para tudo isso é que existe um elemento em comum nos três casos: a presença dos políticos. Uma categoria, digamos, desacreditada.

Só que o Estado não tem apenas dois poderes. Contudo, é sempre mais prudente achincalhar apenas o pessoal do Legislativo. Eles já estão mais acostumados. Ou alguém do Executivo do segundo escalão. Ou que seja do primeiro, mas sem exageros. Afinal, a canetada final fica a cargo destes.

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