Brasília
- Antes de qualquer outra coisa, é necessário
registrar que Romário fez o seu milésimo gol
nesse domingo. E de pênalti, da mesma forma que Pelé
marcou o seu milésimo há 37 anos. Tudo bem
que Romário marcou em São Januário
e Pelé, no Maracanã. Tem até quem afirme
que o adversário do Vasco de Romário, o Sport
do Recife, não estava a altura do adversário
do Santos de Pelé, o Vasco da Gama (atual time de
Romário).
Mas o que me traz aqui não é o futebol, nem
essas comparações entre jogadores brasileiros.
Minha praia é mais espinhosa, menos entendida e muito
mais desgastante e cansativa. Minha praia é cobrir
a política do país que parou esse domingo
para ver o milésimo gol de Romário.
A Polícia Federal, dentre as suas infinitas operações,
saiu prendendo um monte de gente na última quinta
–feira (17). Entre elas, ex-governadores, funcionários
públicos e empresários. Parece que esse pessoal
estava envolvido em um esquema de corrupção
que desviava dinheiro dos cofres da nação.
O programa televisivo de maior audiência do domingo
à noite, aquele que com sua música melancólica
decreta que o fim de semana morreu, reservou uns bons 15
minutos de reportagem para mostrar como a quadrilha se infiltrou
na administração federal e em alguns governos
estaduais. O roteiro não é novidade: obras
superfaturadas, pagamento de propinas, tráfico de
influência e tudo mais que o povo brasileiro não
sabe explicar muito bem, mas entende que não é
coisa direita.
Está todo mundo na expectativa de ver algum parlamentar
envolvido na conversa. Pelo que pude olhar em ou outro veículo
de comunicação, até agora dois senadores
estão “em situação delicada”:
o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), que,
de acordo com a revista Veja , chegou a despachar na residência
oficial com o dono da empreiteira acusada de coordenar os
desvios de dinheiro em obras públicas; e o senador
Delcídio Amaral (PT-MS), que, de acordo com a Folha
de S. Paulo , aparece na contabilidade da Gautama, empreiteira
acusada de coordenar o mesmo esquema.
Amanhã teremos aquela chuva de declarações,
todo mundo se declarando inocente, a imprensa indo atrás
dos parlamentares que tiveram ligações com
alguns dos 46 presos na operação da Polícia
Federal, certamente alguém vai sugerir uma CPI da
Navalha (nome da operação da PF), e o resultado
disso tudo é conhecido por todos nós. Não
vai dar em nada. Congresso serve para vender jornal. Em
períodos normais, de terça a quinta. Em situações
de crise, a tiragem aumenta. Mas a tolerância do brasileiro
para ver a corrupção despida é muito
pequena.
Já apareceu gente dizendo que o mensalão,
os sanguessugas e o pessoal da Navalha são parentes
na corrupção. E a única explicação
para tudo isso é que existe um elemento em comum
nos três casos: a presença dos políticos.
Uma categoria, digamos, desacreditada.
Só que o Estado não tem apenas dois poderes.
Contudo, é sempre mais prudente achincalhar apenas
o pessoal do Legislativo. Eles já estão mais
acostumados. Ou alguém do Executivo do segundo escalão.
Ou que seja do primeiro, mas sem exageros. Afinal, a canetada
final fica a cargo destes.
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