Brasília
- O acidente com o avião da TAM no aeroporto de Congonhas
serviu para que duas comissões parlamentares de inquérito,
que tratam do mesmíssimo assunto, retornassem ao
noticiário. Tanto a CPI da Câmara quanto a
do Senado não despertavam mais o menor interesse
e estavam caindo no esquecimento coletivo.
Contudo,
as novas mortes, incluindo a do líder da minoria
na Câmara, Júlio Redecker (PSDB-RS), ressuscitaram
uma comissão destinada ao ostracismo absoluto.
Tanta
impresa novamente no caso fez com que a CPI da Câmara
se reunisse numa sexta-feira, em pleno recesso parlamentar,
para votar requerimentos e convocações. Estava
tudo caminhando para que, finalmente, as TVs noticiassem
o trabalho da comissão à exaustão.
Contudo, na mesma sexta em que a CPI da Câmara se
reuniu, ninguém menos do que o senador Antonio Carlos
Magalhães (DEM-BA) morre.
Então,
grade parte do noticiário teve que ser reservada
para a biografia do polêmico parlamentar. Além
de ACM, um outro parlamentar também morreu na última
sexta, Nélio Dias (RN), presidente do PP.
Atualmente,
a mídia se debruça sobre as causas do acidente.
Se foi problema de falha mecânica – hipótese
que fez com que o assessor especial de Lula Maço
Aurélio Garcia comemorar com um gesto um tanto quanto
vulgar; se foi falha humana, se foi falha do governo.
Em
pronunciamento em cadeia nacional de rádio e TV,
três dias após o maior desastre de nossa aviação,
o presidente Lula se solidarizou com amigos e familiares
das vítimas da tragédia de Congonhas, pediu
serenidade à população neste momento
difícil e anunciou a intenção de promover
mudanças no aeroporto brasileiro mais movimentado.
Em
relação à Brasília, podemos
dizer que graças aos integrantes da CPI do Apagão
Aéreo, que ficou esquecida duas semanas após
a sua criação até o acidente de Congonhas,
o Congresso Nacional terá a sua fatia no noticiário
televisivo noturno.
Nesta
semana teremos alguns depoimentos na comissão, entre
eles o do presidente da TAM. E é claro que, desta
vez, a CPI terá a cobertura que tanto desejou. Mas
como nada é tão favorável assim para
esta comissão, em pouco contaremos mais uma vez com
o caso Renan; com o caso do recém empossado senador
Gim Argello (suspeito de envolvimento em diversos escândalos
de corrupção); reforma política; etc.
Especialistas
afirmam que o laudo definitivo sobre o que provocou o acidente
com o avião da TAM no aeroporto de Congonhas só
sairá em, no mínimo, dez meses. Mas até
lá, muita conversa sobre o ocorrido fará com
que percamos, mais uma vez, o interesse.
Não
sei se seria injusto dizer que os brasileiros são
capazes de esquecer coletivamente as suas piores dores numa
velocidade surpreendente. Pode até parecer conversa
de antropólogo, mas teimo em achar que a validade
de nossas maiores revoltas é tão longa quanto
a validade de um iogurte.
Quem
sabe estou sendo injusto e a morte trágica de quase
400 pessoas em um espaço de dez meses faça
com que repensemos nossas formas de lidar com tanto sofrimento
e descaso. Sinceramente, espero estar errado. Da mesma forma
também espero que o interesse sobre a CPI do Apagão
Aéreo não seja consumido imediatamente e faça
com que dentro de quatro semanas a comissão parlamentar
volte ao seu estado de abandono de nossas atenções.
Confesso que espero estar enganado. Mas creio sinceramente
que não estou.
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