Brasília
- Nada mais triste do que um profissional sem os seus segredos,
sem os seus dialetos, sem conseguir se tornar incompreensível
para mais de 80% dos que o escutam. A importância
de uma profissão está diretamente relacionada
ao fato dela ser um mistério. Prova maior do que
o imutável e contemporâneo dialeto jurídico
em português medieval não existe.
Contudo
uma categoria, mais do que qualquer outra, é a campeã
da incompreensão: refiro-me aos economistas. A economia,
como de tudo de bom nesta vida, é uma ilusão.
O dinheiro é apenas um símbolo encontrado
pelos homens para dar alguma razão a esta existência
miserável de razões.
Deixando
um pouco a conversa besta de lado, tratemos do que interessa:
Congresso Nacional. Os deputados, para variar, foram as
grandes estrelas dessa quarta-feira (16). É nas quartas
que o Congresso entra em combustão, é neste
dia que praticamente todos estão por lá, que
os encontros ocorrem, que os discursos escorrem, que o debate
é parido.
Logo
para começar, a CPI do Apagão Aéreo,
que anda mais desanimada do que aula de química orgânica,
desaprovou um requerimento que pedia documentos do Tribunal
de Contas da União (TCU) a respeito do tráfego
aéreo. Há quem possa jurar que a papelada
apontaria irregularidades na Infraero. Daí a turma
dos panos quentes entrou em cena e só vamos contar
nos próximos dias com mais depoimentos que só
produzem sono.
Brasília
também recebeu nessa quarta um monte de gente que
defende os bingos no país. E como essa história
de bingo é muito delicada, até porque envolve
o Judiciário, venda de sentenças, etc, etc,
etc; eu me reservo ao direito de me acovardar e não
comentar nada. Apenas relembrar de uma história que
não foi explorada, para variar, pela imprensa. Alguém
se lembra do Waldomiro Diniz? Aquele assessor do então
ministro José Dirceu? Se vocês puxarem pela
memória, o Waldomiro Diniz, que saiu do governo em
2004 porque apareceu em uma gravação no Jornal
Nacional pedindo propina a um bicheiro, estava envolvido
com bingos. À época, Lula afirmou algo do
tipo: “Legalizar os bingos era legalizar o crime organizado”.
Hoje,
para variar, Lula esqueceu do que disse no passado. Afinal,
não existe no Brasil quem possa criticar o presidente
da República, que não estudo para ser candidato
a faxineiro em qualquer concurso público. O presidente
afirmou, assim como um sacerdote de si mesmo, que o pessoal
tem que decidir se bingo pode ou não pode.
Bom,
mas vamos falar dos deputados porque eles são as
estrelas das quartas. Eles aprovaram uma medida provisória
que aumenta o valor do salário mínimo para
R$ 380. Como o assunto gera editorial de jornal paulista,
principalmente aqueles focados na economia, os ânimos
se exaltaram, o relatório da MP foi modificado, a
oposição ameaçou obstruir, uma reunião
de líderes foi marcada na sala da presidência
da Casa, duas horas de conversa, o governo dizendo que não
podia dar mais dinheiro aos trabalhadores, a oposição
injetando emendas para que o governo gastasse mais. Enfim,
aquele roteiro batido de todo governo.
De
um lado, a oposição diz que o governo é
mão de vaca. Do outro, o governo chamando a oposição
de irresponsável. Conversa vai, conversa vem, o governo
fez o que quis com a MP, que agora vai para o Senado. Enquanto
isso, todos esqueceram que na semana passada, os deputados
aumentaram os próprios salários. Executivo
e Legislativo ganharam aumento. E não se fala mais
nisso.
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