Brasília
- Os dois maiores jornais do Brasil iniciaram o domingo
de uma forma sublime. A Folha de S. Paulo e o O Estado de
S. Paulo conseguiram entrevistas exclusivas com Mônica
Veloso e Verônica Calheiros. Digamos que ao povo brasileiro
foram apresentadas as personagens que faltavam para o entendimento
mais profundo da crise que abala o Senado da República
do Brasil.
À
Folha, a jornalista Mônica Veloso afirmou que “amou
muito” o senador Renan Calheiros (PMDB-AL) durante
o tempo em que o romance extraconjugal permaneceu. Mônica
também afirmou que nunca fez chantagem, que gostaria
de apresentar um programa de entrevistas na TV e que se
tornou “o terror de Brasília”.
Já
o Estadão conseguiu uma exclusiva com a mulher do
presidente do Senado (que também é presidente
do Congresso Nacional). Verônica Calheiros afirmou
que os homens são “bestas” ao caírem
nos encantos de moças mais jovens e graciosas. Contudo,
a mulher de Renan defendeu o seu marido e afirmou que entre
ela e o senador há “amor e companheirismo”.
O
que podemos concluir nesta história? Os jornais finalmente
se deram conta de que não vão conseguir fazer
com que o processo que corre no Conselho de Ética
da Casa contra Renan caminhe na velocidade desejada pelos
chefes de redação. A representação
protocolada pelo Psol contra Renan, por quebra de decoro
parlamentar, tende a se estender por um prazo muito maior
do que a imprensa deseja.
Em
um primeiro momento, tentou-se arquivar o processo contra
o peemedebista das Alagoas. Contudo, além dos indícios
de irregularidades cometidos por Renan que chegavam diariamente
às paginas de jornal, o Conselho de Ética
não conseguiu encontrar um substituto para o senador
Epitácio Cafeteira (PTB-MA), que se licenciou do
caso.
Três
reuniões do conselho, três relatores diferentes.
O senador Eduardo Suplicy (PT-SP) chegou a anunciar que
aceitaria a relatoria do caso, mas ao que tudo indica foi
convencido de que sua ajuda seria mais útil em uma
outra função. Estuda-se até se formar
um conselho de relatores para que o caso seja analisado.
Sentindo
que a história perderia o seu apelo popular se a
cobertura jornalística fosse mantida apenas nos termos
do regimento interno do Senado, com suas normas próprias
de conduta e seu ritmo todo especial; os jornalões
partiram para o ponto de interesse popular.
Existe
uma crise no Congresso Nacional provocada por um relacionamento
extraconjugal de seu presidente. E este relacionamento gerou
uma criança. Portanto, nada mais lógico para
a imprensa do que ouvir as duas mulheres que participaram
deste triângulo amoroso com o senador.
É
a repetitiva ação do homem: o exercício
da política, o mais humano dos ofícios, é
guiado pelos instintos, pelo lado emocional. E é
a palavra da mulher que pode elevar um homem público
às alturas ou derrotá-lo para sempre na opinião
dos seus.
Se
é verdade que o Senado vai adiar de todas as formas
a votação do processo contra Renan no seu
Conselho de Ética, também é verdade
que a imprensa vai apelar cada vez mais para o lado rodriguiano
do episódio. E a venda de jornais aumentará.
E o povo passará a discutir política com mais
conhecimento de causa.
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