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Rodolfo Torres

A festa vai começar

Jornalista rodolfotorres@bayoubrasil.com

 

03/05/07

Rodolfo TorresBrasília - Uma das mais belas coincidências políticas ocorreria na noite dessa quarta-feira (2). Às vésperas da instalação definitiva da tão esperada CPI do Apagão Aéreo, os deputados decidiram que seria possível analisar aquele projeto que aumenta em 28% o salário dos parlamentares, do presidente da República, vice-presidente e da exorbitante quantidade de ministros do governo.

Nada mais justo do que votar um aumento salarial para os parlamentares na véspera de abertura de uma comissão parlamentar de inquérito. O governo, que certamente terá a presidência e a relatoria da CPI, ainda queria outras garantias.

E agora, com a instalação da CPI, a Câmara voltará aos tempos áureos das crises do mensalão e dos sanguessugas. É bem verdade que o atual contexto político é extremamente favorável ao governo. No entanto, essa tal de CPI é danada de boa para corroer a imagem do Planalto. Por conta disso, os palacianos fizeram de tudo para abortar a comissão. Mas não teve jeito.

Só falta o PMDB e o PT indicarem os seus membros, o que será feito nesta quinta feira até as 15h. O próprio presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP), que não é conhecido pelo excesso de paciência, já disse que se o PMDB não indicar o presidente da CPI, ele o fará.

Por tradição, a presidência de qualquer CPI fica com a maior bancada na Casa em que ela for instalada. Daí a certeza de que o presidente será um peemedebista. A relatoria, que é indicada pela presidência, cabe à segunda maior bancada. No caso, o PT.

A oposição quer levar a questão das indicações para o Supremo Tribunal Federal decidir, pois não considera os partidos como entidades isoladas; leva em consideração os blocos partidários. Daí PSDB e DEM teriam a segunda maior bancada. Por conseqüência, o direito à relatoria.

Portanto, é melhor preparar a pipoca, torcer pelo parlamentar preferido, e esperar o espetáculo de depoimentos, cenas impagáveis e muito material para a sátira política. Convém aqui esclarecer que a sátira política representa o principal instrumento de expressão. É por meio do deboche público dos políticos de um país que somos capazes de medir o nível de liberdade e civilidade do mesmo.

Desconfie do político que julga ser sério demais. Porém, também desconfie dos políticos que jamais são sérios (esse é o nosso caso). Exemplo maior do que o do presidente da República não existe.

Em uma conversa com mais de 3.000 prefeitos, Lula prometeu, no mês passado, que aumentaria o repasse do Fundo de Participação dos Municípios em um ponto percentual, de 22,5% para 23,5%. O aumento representaria uma despesa extra de R$ 1,5 bilhão aos cofres do Planalto.

A promessa de Lula aos prefeitos seria votada nessa quarta pelos deputados. Mas chegou uma ordem palaciana mandando retirar o projeto de pauta. Logo em uma sessão extraordinária, lá pelas 22h, quando todo mundo já estava cansado, e existia uma certeza muda no ar de que o aumento dos deputados seria votado ainda naquela noite.

Por conta da promessa de Lula aos prefeitos, a sessão na Câmara teve que ser encerrada. Os partidos da base aliada do Planalto entraram em processo de obstrução, e as demais propostas ficaram para depois da análise de duas medidas provisórias, que passam a obstruir a pauta da Casa a partir de hoje.

Ou seja, se Lula medisse as suas palavras, ou soubesse o que estava falando, ou não falasse de improviso, os parlamentares estariam entrando em mais uma CPI com os bolsos mais forrados. E isso sempre tem a sua importância.

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