Brasília
- A semana dos Jogos Pan-Americanos finalmente chegou. E
o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), viveu
durante mais de um mês uma agonia que, ao que tudo
indica, deve diminuir a partir dos próximos dias.
Deve estar comprovado em algum lugar que a corrupção
não é capaz de sensibilizar o povo brasileiro.
O tema “corrupção” não
é um Live Earth, não é um Criança
Esperança, não é uma campanha para
eleger o Cristo Redentor como uma das maravilhas do mundo
atual, nem muito menos o velho e amado futebol.
Para o brasileiro, corrupção na política
é tão familiar como tomar café com
leite no início da manhã. É corriqueiro
e dolorido tratar de temas que envolvem tanto dinheiro em
um país que sempre esmagou os seus cidadãos
com uma combinação nada amistosa: muito imposto
e nenhum retorno social.
Brasileiro é gato escaldado em matéria de
política. O povo deste país, apesar da pouca
escolaridade, conhece as suas limitações e
saberá se manter exemplarmente sereno enquanto a
indignação contra os políticos é
diluída com notícias mais interessantes.
Sem contar que a seleção brasileira de futebol
ganhou mais uma vez da seleção chilena, e
desta vez com um placar muito mais dilatado do que o do
primeiro confronto. Teremos Copa América, Pan-Americano,
além do brasileirão. Além disso, ainda
teremos a nossa competentíssima imprensa de celebridades
que, na minha humilde opinião, é o futuro
do jornalismo. Um brinde aos tablóides ingleses...
Já vivemos a era do colunismo social em todas as
áreas da informação. O jornalismo político
atual, por exemplo, não passaria de um colunismo
social com uma pretensa carapuça de intelectualidade.
Propostas não são discutidas, apenas aqueles
conchavos, aqueles bastidores, aquela conversa de corredor
– que é uma delícia para o leitor.
E sejamos honestos: diante de nossa bendita superficialidade,
quem teria paciência para se deleitar sobre propostas
políticas sérias? É melhor mesmo ficar
naquela conversa de bastidor, do disse me disse, e considerar
a prática como jornalismo político.
A cada semana, a maior revista do Brasil publica uma nova
denúncia contra o presidente do Senado. Entendo que
deve fazer um bem danado ao ego dizer aos amigos na confraternização
de fim de ano: “Derrubamos o presidente do Senado”.
Mas o povo sabiamente não embarca nestas ondas de
ódio estimulado quando o sentimento que toma conta
dos noticiários é o dos jogos da Paz. Renan
terá um pouco mais de sossego a partir de agora.
E que venham os jogos Pan-Americanos. E que tragam consigo,
além daquela velha história do exemplo por
meio do esporte, muita notícia que não seja
de escândalos na política.
O bom sono de um país, principalmente o de muita
gente nos mais diversos gabinetes de Brasília, agradece.
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