O
desconforto nosso de cada dia
Todos
nós já sentimos um estado de desconforto, seja por
dores agudas ou crônicas, dificuldade respiratória,
dores de cabeça, tensão muscular excessiva, estafa,
postura inadequada etc.
No
estresse do cotidiano, muitas vezes não percebemos que
esse estado de desconforto é gerado e mantido por inúmeras
situações, às quais damos pouca atenção:
a posição fixa que adotamos em longas jornadas de
trabalho; os movimentos repetitivos no teclado do computador;
o esforço demesurado e mal-coordenado no transporte de
cargas pesadas; o sedentarismo; o uso do salto alto ou um simples
“mau jeito” enquanto você dançava no
forró.
Dentre
as várias condições que dão origem
à dor e ao desconforto, não podemos ignorar que
nossos humores afetam nosso corpo: nossas emoções
e nossa personalidade se exprimem através de nossa postura,
nossos gestos e movimentos.
Por
exemplo, se nossa atitude psíquica é fixa, são
grandes as chances de que nosso corpo “faça eco”
e se exprima da mesma forma adotada por nossa psique. Tristeza,
raiva, irritabilidade, ansiedade, agitação e euforia
são alguns dos estados psíquicos que, ao se tornarem
constantes, podem ocasionar uma diminuição do potencial
motor do corpo.
Esse tipo de fixação psíquica pode estar
relacionada a um trauma, um acidente, às exigências
sociais às quais somos submetidos ou aos desafios mal resolvidos
do cotidiano. Nosso corpo reage a todo e qualquer movimento da
nossa psiquê, visto que ambos são faces de uma mesma
moeda.
Não
podemos deixar de refletir também sobre os aspectos socioculturais
incrustados ao corpo humano. Nos dias de hoje, nos grandes centros
urbanos, o corpo humano é submetido a uma quantidade infinita
de estímulos externos.
É
sabido que quando um estímulo externo é ininterrupto,
o corpo tende a “absorvê-lo”, ou seja, a não
mais senti-lo como tal, mas a integrá-lo como parte de
si. Por exemplo, ao trabalharmos no computador, podemos escutar
o barulho que ele faz? Provavelmente não. Porém,
ao desligarmos o computador, certamente pensamos: “Até
que fim: silêncio!”
O
corpo do homem urbano contemporâneo é vítima
do fenômeno da “anestesia sensorial”: exposto
a um sem-número de informações, ele se torna
menos sensível, como se, densificado pelo excesso de estímulos
externos, fosse estabelecida uma carapaça de proteção
ao meio.
O
“corpo contemporâneo” perde assim sua inteligência,
sua versatilidade. Ele se torna cada dia mais opaco.
Recentemente,
uma famosa companhia de calçados lançou um tênis
capaz de mudar a densidade de seu salto em função
da qualidade do terreno. Fruto das pesquisas de uma tecnologia
voltada exclusivamente para o consumo, o tênis tem um dispositivo
que é capaz de “ler” a densidade do terreno
à medida que a pessoa caminha e “adaptar” seu
salto mais duro ou mais mole para que o pé, o tornozelo
e o joelho do caminhante sofram menos ou mais impacto.
Ora,
sabemos que, dentre os seres vivos do planeta, o corpo humano
é justamente um dos mais capazes de se adaptar a diferentes
condições do meio ambiente. Será que chegaremos
a um ponto onde o corpo humano estará tão anestesiado
que dependerá de objetos que “tomem decisões”
por nós? Será que de fato necessitamos de um tênis
que “decida” por nossos pés? Absurdos mercadológicos...
Como
podemos constatar, muitos são os fatores – biomecânicos,
psicológicos, socioculturais – que têm relação
com o desalinhamento da estrutura ósseo-muscular, que se
traduz em dor ou simplesmente em uma sensação de
desconforto.
Para continuar “funcionando”, o organismo compensa
um pequeno incidente (torcer o tornozelo durante uma caminhada
na praia) enrijecendo alguns músculos. Esse mecanismo compensatório
serve para proteger as articulações fragilizadas
no momento da torção.
Se
não for tratado e reeducado, esse mecanismo de compensação
que protege as articulações lesadas termina por
se transformar em uma prisão: a articulação
perde sua mobilidade natural.
E
um círculo vicioso se instala: quanto menos mobilidade
uma articulação tem, mais desconforto sentimos,
e quanto mais desconforto sentimos, menos utilizaremos a articulação.
Dessa forma, a articulação que não cumpre
sua função acaba enferrujando, como a dobradura
de uma porta que nunca é utilizada.
Com
o tempo, as compensações musculares acentuam o desalinhamento
ósseo não somente na primeira região lesada
(o tornozelo torcido), mas em outras regiões do corpo.
Tal como um jogo de telefone sem fio, onde a última pessoa
da fila recebe a mensagem totalmente destorcida, um tornozelo
torcido não cuidado pode resultar, por exemplo, em problemas
nas vértebras do pescoço.
Através
do mecanismo de compensação, pouco a pouco o corpo
vai perdendo a fluidez natural de seus movimentos. Passamos então
a sentir nosso corpo como um fardo. Se não cuidarmos dessa
situação, nosso corpo passará a ser uma prisão
que nos impede de desfrutar a vida. Se essa situação
se tornar crônica, o corpo embrutecerá de tal forma
que será quase impossível fazer as ações
cotidianas mais banais para garantir a sobrevivência.
Pilates:
corpo inteligente
O
Pilates torna-se cada vez mais popular como um método para
se manter em forma de maneira inteligente. Criado pelo alemão
Joseph Pilates, este método é composto de exercícios
tanto de alongamento quando de tonificação muscular.
Joseph
Pilates nasceu na Alemanha, em 1880. Sua infância foi marcada
pela asma, raquitismo e febre reumática. Sua determinação
em liberar seu corpo dessas doenças o levou à pratica
de variados exercícios, como o mergulho e a ginástica.
Durante
a Primeira Guerra Mundial, Joseph Pilates vivia na Inglaterra.
Considerado um inimigo estrangeiro, acabou sendo preso. Mesmo
limitado pelo pequeno espaço de sua cela, Joseph Pilates
continuou praticando exercícios e começou assim
a criar novos movimentos.
Tornou-se então enfermeiro e ensinou a outros prisioneiros
os exercícios que havia criado. Sua técnica só
foi reconhecida quando nenhum dos prisioneiros de sua prisão
sucumbiu a uma epidemia de gripe que assolou a Europa em 1918.
Em
1926, Joseph Pilates radicou-se nos Estados Unidos e começa
a ensinar seu método oficialmente. Tornou-se conhecido
junto a bailarinos profissionais que desejavam melhorar sua performance
e prevenir problemas articulatórios.
Hoje, o método Pilates está na moda, abrangendo
uma clientela vasta, sobretudo aquela cujos problemas posturais
diminui a produtividade no trabalho e o prazer de viver.
Desde
sua criação, o método Pilates não
deixou de evoluir. Uma das marcas de seu desenvolvimento é
o crescente interesse de seus professores pelas técnicas
de Educação Somática.
Em face de uma clientela com problemas crônicos, muitos
dos professores foram levados a buscar técnicas de apoio
para que os princípios do método Pilates pudessem
ser transmitidos aos alunos de modo mais eficaz.
Um
dos desafios dos professores de Pilates é saber lidar com
o aluno que quer resultados rápidos. Não é
raro alguém que venha às aulas de Pilates com a
esperança de erradicar suas dores, ficar “reto”
ou perder a “barriguinha”.
O aluno paga pelas aulas, participa com fervor, mas não
vê os resultados que queria dentro do tempo desejado. Essa
frustração cria um círculo vicioso: quanto
mais o aluno fica frustrado, mais ele faz esforços inúteis
durante a execução dos exercícios, mais luta
contra o corpo e faz os exercícios de forma mecânica.
A situação de desconforto aumenta e a frustração
continua.
Outro
desafio para os professores de Pilates é aquele aluno que
tem problemas respiratórios causados por tensão
muscular excessiva. Por causa da rigidez de seu tórax,
torna-se quase impossível para esse aluno integrar o tipo
de respiração adotado na maior parte dos exercícios
de Pilates, pois, de modo geral, ele não sente a mobilidade
de suas costelas.
A
motivação desse tipo de aluno começa a declinar
quando o professor propõe, por exemplo, que ele mantenha
o ventre contraído e respire expandindo lateralmente suas
costelas. Esse é um dos princípios de base do Pilates.
Se o aluno não é capaz de sentir o movimento de
expansão lateral suas costelas, as seqüências
de exercícios de Pilates tornam-se tão penosas que
o ele acaba desistindo das aulas.
Cientes de que o método Pilates apresenta lacunas pedagógicas
no que diz respeito ao desenvolvimento da consciência corporal
do aluno, muitos professores encontraram nos métodos de
Educação Somática estratégias pedagógicas
que facilitam o aprendizado do aluno. As técnicas em questão
podem tornar o aluno mais consciente de seus movimentos bem como
levá-lo a relaxar as tensões excessivas que o impedem
de realizar com eficácia os exercícios de Pilates.
Por meio da Educação Somática, muitos dos
professores de Pilates estão adotando em seu protocolo
de ensino o princípio de que não é suficiente
fazer exercícios. A chave está em sentir como fazemos
os exercícios.
O
aluno que se frustra por não ver resultados imediatos necessita
compreender que os resultados desejados são intrínsecos
a como ele faz os exercícios. O aluno deve ser conscientizado
pelo professor de que se o exercício é feito de
modo preciso e consciente, ele atingirá seus objetivos
sem correr o risco hipotecar sua ainda mais saúde.
Isso
requer paciência e capacidade de concentração
da parte do aluno. As técnicas de Educação
Somática podem contornar a frustração do
aluno, levando-o a aprender a concentrar-se, a melhorar a execução
dos exercícios de Pilates, a aceitar os limites de seu
corpo sem abandonar o desejo de avançar.
Educação
Somática: corpo consciente
A
Educação Somática é um campo teórico
e prático que se interessa pela consciência do corpo
e seu movimento. Muito embora o campo exista há mais de
um século na Europa e na América do Norte, a denominação
“Educação Somática” foi criada
em 1995 pelos membros do Regroupement pour l’Éducation
Somatique (RES) em Montreal, Canadá.
Sob
a denominação de Educação Somática
reagrupam-se diferentes métodos educacionais de conscientização
corporal, dentre os quais se destacam: Técnica de Alexander,
Feldenkrais, Antiginástica, Eutonia, Ginástica Holística
etc.
Um
dos princípios de base da Educação Somática
é de que o corpo humano é um organismo vivo indivisível
e indissociável da consciência. O termo somático
vem da palavra grega soma, que Hanna (1979) define como “(…)
corpo subjetivo, ou seja, o corpo percebido do ponto de vista
do indivíduo.
Quando um ser humano é observado de fora, por exemplo,
do ponto de vista de uma terceira pessoa, nesse caso, é
o corpo que é percebido.”
Para
os professores de Educação Somática, a saúde
é um estado de bem-estar global da pessoa em seu meio ambiente.
Segundo esta visão, os diferentes desequilíbrios
das funções fisiológicas, psíquicas,
cognitivas e afetivas são abordados pelo professor de Educação
Somática como fazendo parte de um todo.
A
dor é somente um sintoma, não um problema: sua causa
está em como a pessoa “se utiliza” em seu cotidiano.
Em outras palavras: como a pessoa caminha? Como ela se senta?
Como transporta cargas pesadas? O professor de Educação
Somática ensina à pessoa a recuperar seu estado
natural de bem-estar por intermédio de uma conscientização
de seu corpo e de seu movimento.
Nesse
sentido, os professores de Educação Somática
atendem a uma clientela muito variada, apresentando queixas das
mais distintas: a secretária que deseja prevenir a síndrome
do túnel do carpo e as perturbações visuais
decorrentes das longas horas de trabalho ao computador; o estudante
que deseja melhorar sua capacidade de concentração;
o atleta que visa diminuir suas chances de desgaste articular;
o trabalhador que quer aliviar as dores causadas pela tendinite;
a criança que tem um problema de coordenação
motora; o professor que necessita melhorar o alcance de sua voz;
a dona-de-casa que precisa recuperar-se da estafa; o chefe de
família que tem o seu rendimento profissional diminuído
por causa de dores na coluna; o desportista que necessita aprimorar
a eficácia de seus gestos; o músico que tem problemas
posturais decorrentes de movimentos repetitivos; a bailarina que
deseja refinar sua expressividade; o fisioterapeuta que deseja
complementar sua prática profissional com técnicas
criativas e eficazes etc.
Nas
aulas de Educação Somática, a atmosfera é
de não-competitividade e relaxamento. O professor de guia
os alunos na prática de exercícios lentos que associam
a precisão do gesto ao ritmo respiratório.
Esses
exercícios são simples, mas nem por isso deixam
de desafiar a capacidade psicomotora do aluno, visto que propõem
movimentos inabituais. Ao contrário das rotinas e seqüências
fixas de exercícios aprendidos em academias, os exercícios
de Educação Somática convidam à “experimentação
de gestos complexos e inabituais que exigem respostas neuromusculares
renovadas” .
Nas
aulas de Educação Somática, o uso de uma
variedade de objetos (bolas de borracha e de espuma, pequenos
sacos de areia, bastões de madeira, tubos de cartolina
etc.) predispõe o aluno a descobrir seu próprio
corpo através de uma automassagem que visa sensibilizar
o tecido conjuntivo e reativar a sensação dos ossos
e das articulações “anestesiadas”.
O objetivo dos exercícios de Educação Somática
é de levar o aluno a reencontrar o estado natural de equilíbrio
de sua estrutura ósseo-muscular, ou seja, um tônus
muscular versátil, capaz de se adaptar aos variados estímulos
do meio. O aluno torna-se mais consciente dos limites e do potencial
de seu corpo e integra as sensações de alongamento
e fluidez vividos em aula no seu dia-a-dia.
A
parceria entre o Pilates e a Educação Somática
visa a despertar o potencial de inteligência e consciência
do corpo. Com a prática regular dos exercícios das
duas técnicas unidas, a pessoa torna-se mais atenta a seus
próprios movimentos, gestos e posturas do cotidiano, tornando-se
capaz de reconhecer quais geram desconforto, podendo então
evitá-los ou contorná-los.
abril 2006
Débora
Bolsanello
dbolsanello@movimentoes.com
www.movimentoes.com
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